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domingo, 20 de dezembro de 2009

Um esgar

A nossa doença é a nossa máscara.
A nossa doença é tédio sem fronteiras.
A nossa doença é como um extracto de preguiça e inquietação eterna.
A nossa doença é miséria.
A nossa doença é estar agrilhoado a um lugar.
A nossa doença é nunca podermos estar sós.
A nossa doença é não termos profissão, e se tivessemos uma [seria] a de a termos.
A nossa doença é desconfiarmos de nós, dos outros, do saber, da arte.
A nossa doença é falta de seriedade, falsa serenidade, sofrimento duplo. Alguém nos disse: como o vosso riso é estranho. Se esse alguém soubesse que este riso é o reflexo do nosso inferno, o amargo contrário do: "Le sage ne rit qu'en tremblant" de Baudelaire.


A nossa doença é a desobediência a Deus que nos impusemos a nós próprios.
A nossa doença é dizer o oposto daquilo que gostaríamos de dizer. Temos de nos torturar a nós próprios, observando as expressões fisionómicas dos que nos ouvem.
A nossa doença é sermos inimigos do silêncio. (...)
A nossa doença. É provável que alguma coisa a pudesse curar: o amor. Mas tínhamos de acabar por reconhecer que nós próprios nos havíamos tornado demasiado doentes para amar. Uma coisa porém existe que é a nossa saúde. Dizer três vezes "apesar disso", cuspir três vezes nas mãos como um velho soldado, e continuar então a avançar pela nossa estrada fora, como nuvens puxadas pelo vento do ocaso, em direcção ao desconhecido.




Georg Heym, A Autópsia e outros contos, apaginastantas, 1988. Tradução de Anabela Mendes.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As tuas pestanas, as longas

As tuas pestanas, as longas,
As águas escuras dos teus olhos,
Deixa-me mergulhar nelas,
Deixa-me ir até ao fundo.

Desce o mineiro ao poço
E baloiça a baça lanterna,
Sobre o arco do minério,
Em cima, na parede de sombras,

Vê, eu desço
Para esquecer no teu seio,
Longe, o que de cima ainda ecoa,
Claridade e cor e dia.

Nos campos cresce,
Lá onde o vento pára, ébrio de searas,
Alto espinheiro, alto e doente,
Enlaçado com o azul-celeste.

Dá-me a mão
Vamos enlaçar-nos um no outro,
Presa de um vento,

Voo de pássaros solitários,
Ouvir no verão
O órgão de abafadas tempestades,
Banhar-nos na luz de outono,
Na margem do dia azul

De vez em quando ficaremos parados
À beira da escura fonte,
Para olhar o fundo do silêncio,
Para procurar o nosso amor.
Ou saímos
Da sombra das douradas florestas,
Enormes em direcção a um crepúsculo
Que a ti te toca a fronte levemente.

Para pararmos então no fim,
Onde o mar, em manchas amareladas,
Já vem vogando de mansinho
Para os braços da baía de Setembro.

Para descansarmos em cima
Na casa das flores sequiosas,
Descendo por sobre os penedos
O vento canta e treme.

Mas do choupo
Que no azul eterno se destaca
Cai já uma folha castanha,
Que sobre a nuca te descansa.

Divina tristeza
Cala-te ante o eterno amor.
Ergue a taça,
Bebe o sono.


Tradução de João Barrento