domingo, 26 de dezembro de 2010

Dinno Valls


Frontal - Du

A QUEIMA DOS LIVROS

Quando o regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu horrorizado, que os seus

Livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do poder.
Queimai-me! Escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso!
Não me deixes de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros?
E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos: Queimai-me!






Bertolt Brecht, in "Poemas" asa, 2008
trad. Paulo Quintela

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O importante

Quando te procurei
Estaria por acaso a verdade à minha espera?
O amor ocorre num espaço flutuante
Num exíguo lugar-nenhum
E o sonho é matéria incerta
Mestre na arte da fuga.





Ana Hatherly, in "A Neo-Penélope" & etc, 2007

Nocturno

Neste anoitecer Vénus aparece sozinha
E no caminho de casa as penas são como seda
Como a túnica de um múltiplo fantasma
Como asas despedaçadas num céu de leite.
Em breve as gaivotas transformar-se-ão na pedra
Que procurei e perdi além, na senda dos
Bosques onde eu e a minha ignorância
Caminhámos juntos sobre as mãos e os joelhos
E juntos continuamos a caminhar sob a palidez
De um belo anoitecer muito amado,
Mas este anoitecer é a minha prisão
E os polícias brilham entre as árvores.





Malcolm Lowry, in "As cantinas e outros poemas do álcool e do mar" assírio & alvim, 2008

sábado, 4 de dezembro de 2010

"Margareth, Paris"


Bruno Bisang,"Margareth, Paris", 1998. Silver Gelatine Print. Größe 20x24. 2000 Euro. Edition: 25 (PhotographersLimitedEditions.com)

Marc Baptiste, "My Hotel"


Marc Baptiste, "My Hotel", 2003. C-Print. Größe 40x50. 3500 Euro. Edition: 25

Flora P.: "blut2_0131", 2010

SE TE NOMEASSE CINTILARIAS

Se te nomeasse cintilarias

no beco de uma cidade desfeita

e o chumbo dos labirintos derreter-se-ia

na veia branca da noite uma estátua

de areia talvez um barco sulcasse

a cabeleira aquática da fala e

nenhuma porta se abriria sob teus passos



onde estamos? onde vivemos?

no desaguar tenebroso deste rio de penumbra

não beberemos ao futuro do homem

nem festejaremos o rugido triste da fera

moribunda


mas se te nomeasse

que desejo de sexo e da mente a medrosa alegria

em mim permaneceria?



Al Berto in. "Transumâncias"

H

O coveiro subiu três degraus e pisou a soleira.


Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.

Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que pode os seus grandes olhos infectados. E quando finalmente a deitou sobre o lado virgem da cama, cobrindo metade da morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:

- Não posso coçá-los. Tenho comichão, mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los.

Ainda vestido e calçado, deitou-se ao seu lado. Afogou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o nariz mal treinado para odores mais intímos a uma das axilas recém-barbeadas da morta. Os seios destapados, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. E foi nesse preciso instante - enquanto cheirava o doce e fixava as laranjas - que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, dura, e indefesa ao seu lado; ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluía todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo.

Com uma enorme erecção dentro das calças o coveiro constatou:

-É isto afinal o mundo.

domingo, 7 de novembro de 2010

Karl Persson




" Felizmente, algures entre o acaso e o mistério repousa a imaginação, a única coisa que protege a nossa liberdade, apesar do facto de as pessoas continuarem a tentar reduzi-la ou eliminá-la no seu todo "

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Em virtude do Amor

Libertei o quarto onde durmo, onde sonho
Libertei o campo e a cidade onde passo,
Onde sonho acordado, onde o sol se levanta,
Onde, nos meus olhos ausentes, a luz se acumula.

Mundo de pequena felicidade, sem superfície e sem fundo,
De encantos esquecidos logo que descobertos,
O nascimento e a morte misturam o seu contágio
Nas dobras da terra e do céu misturadas.

Não separei nada mas reforcei o coração.
De amar, tudo criei: real, imaginário,
Dei a sua razão a sua forma o seu calor
E o seu papel imortal àquela que me ilumina.




Paul Éluard, in "poemas de amor e de liberdade" campo das letras, 2000
trad. Egito Gonçalves

CARNE EROTICA (STRANGE LOVE)




Bruno Bisang

Yasmeen Ghauri, Sardinia ‘89
Ceyla, Beaugency ‘91

Sem Rumo

Uma folha ao dissabor da tempestade

Partindo-se na poeira do abandono

o silencio do amante na sisuda fronte

Do cavaleiro.


Inerte esvaece o infantil assombro

Um esqueleto ao relento chora

A noite embala meus despertos pesadelos

Incessante é a dor estirando mórbidos pensamentos

Espalhando-os como lembranças em chagas.

Uma folha desaparece e no seu rumo incerto

Toda saudação,esperança e amor em delírio partilham

O mergulho em solidão infinita.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dolls

Na noite, no silêncio...

Na noite, no silêncio...
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.

...



(Excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aparece


Aparece pura gema feminina
Como uma jovem solitária
No meio dos seus vestidos nus
Como uma jovem nua
No meio das mãos que a imploram
Eu te saúdo

Anseio por uma chama nua
Anseio p'lo que ela esclarece
Surge meu jovem espectro
Nos teus braços uma ilha desconhecida
Tomará a forma do teu corpo
Minha bem aparecida

Uma ilha e o mar decresce
O espaço teria um leve arrepio apenas
Para nós dois um único horizonte
Acredita em mim revela-te assedia o meu olhar
Dá vida a todos os meus sonhos
Abre os olhos.



Paul Éluard in. "últimos poemas de amor" relógio d'água

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

Há na intimidade um limiar sagrado

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não podem transpor-
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.



Anna Akhmátova in. "só o sangue cheira a sangue" assirio & alvim

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Manifesto

"Uma mulher compreendeu que para nada lhe serve usar seus encantos e a isso renuncia. Um outro sabe que a Igreja não faz de ninguém um cristão e recusa batizar seu filho. Um outro vê os malefícios da imprensa a soldo da sociedade e se abstém de lê-la. Tais são os primeiros passos do homem que se afasta do mundo antigo. Vêm em seguida os atos decisivos pelos quais ele o rejeita, o aniquila e o esquece em sua pessoa. Afastar-se radicalmente, interiormente e exteriormente, do mundo antigo e de suas instituições - sociedade, família, Estado, Igreja, arte, ciência, moral e cultura - é a condição da liberdade no mundo novo. A hora das decisões chegou para todos. Todos aqueles que compreenderam que o mundo antigo é um Calvário devem tomar suas responsabilidades. Somos de novo responsáveis pelo destino do mundo: da morte do antigo e do nascimento do novo. É agora que tudo se decide. É agora que nasce o Homem Novo."

[Lothar Schreyer, Manifesto, 1919]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TALVEZ NÃO SEJA…

talvez não seja sempre assim; e digo eu
que se os teus lábios tão amados tocarem
os de outro, e os teus dedos firmes agarrarem
o seu coração, como não há muito tempo o meu;
se num outro rosto repousar o teu cabelo querido
naquele silêncio que conheço, ou no dizer
de palavras trémulas que por demasiado falarem
ficam indefesas perante o espírito constrangido;


se tiver que ser, eu digo se assim for
tu que és do meu coração, manda-me avisar;
para que eu possa ir até ele, pegar-lhe na mão,
e dizer, recebe de mim a felicidade do amor.
depois hei-de voltar o rosto, e ouvir um pássaro cantar
terrivelmente longe em terras de solidão.


e. e. cummings, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Maria da Graça Braga

sexta-feira, 16 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-Ser!

domingo, 4 de julho de 2010

Nude photo by K Leo

K Leo is a fine Art photographer who's work seeks to capture the beauty of his subjects. K Leo's photographs range from erotic artistic nudes to pensive emotive portraits.


I want to be quiet
A provisional suport machine
If the sea challenges
Never sure if mind recycling even works.Crossing the findings for increased meanings practicly flakes disapointment.
On every other day

O amor é o amor

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos - somos um? somos dois?-
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!



Alexandre O'Neill in. "Poesias Completas" assírio & alvim

Akt

quinta-feira, 1 de julho de 2010