sexta-feira, 30 de julho de 2010

Manifesto

"Uma mulher compreendeu que para nada lhe serve usar seus encantos e a isso renuncia. Um outro sabe que a Igreja não faz de ninguém um cristão e recusa batizar seu filho. Um outro vê os malefícios da imprensa a soldo da sociedade e se abstém de lê-la. Tais são os primeiros passos do homem que se afasta do mundo antigo. Vêm em seguida os atos decisivos pelos quais ele o rejeita, o aniquila e o esquece em sua pessoa. Afastar-se radicalmente, interiormente e exteriormente, do mundo antigo e de suas instituições - sociedade, família, Estado, Igreja, arte, ciência, moral e cultura - é a condição da liberdade no mundo novo. A hora das decisões chegou para todos. Todos aqueles que compreenderam que o mundo antigo é um Calvário devem tomar suas responsabilidades. Somos de novo responsáveis pelo destino do mundo: da morte do antigo e do nascimento do novo. É agora que tudo se decide. É agora que nasce o Homem Novo."

[Lothar Schreyer, Manifesto, 1919]

segunda-feira, 19 de julho de 2010

TALVEZ NÃO SEJA…

talvez não seja sempre assim; e digo eu
que se os teus lábios tão amados tocarem
os de outro, e os teus dedos firmes agarrarem
o seu coração, como não há muito tempo o meu;
se num outro rosto repousar o teu cabelo querido
naquele silêncio que conheço, ou no dizer
de palavras trémulas que por demasiado falarem
ficam indefesas perante o espírito constrangido;


se tiver que ser, eu digo se assim for
tu que és do meu coração, manda-me avisar;
para que eu possa ir até ele, pegar-lhe na mão,
e dizer, recebe de mim a felicidade do amor.
depois hei-de voltar o rosto, e ouvir um pássaro cantar
terrivelmente longe em terras de solidão.


e. e. cummings, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Maria da Graça Braga

sexta-feira, 16 de julho de 2010

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,

E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-Ser!

domingo, 4 de julho de 2010

Nude photo by K Leo

K Leo is a fine Art photographer who's work seeks to capture the beauty of his subjects. K Leo's photographs range from erotic artistic nudes to pensive emotive portraits.


I want to be quiet
A provisional suport machine
If the sea challenges
Never sure if mind recycling even works.Crossing the findings for increased meanings practicly flakes disapointment.
On every other day

O amor é o amor

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor
e trocamos - somos um? somos dois?-
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?!



Alexandre O'Neill in. "Poesias Completas" assírio & alvim

Akt

quinta-feira, 1 de julho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!





José Régio, in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" antígona/frenesi (1999)

Viennese Actionism in your head



quinta-feira, 24 de junho de 2010

Fractal

Acto surrealista

«O mais simples dos actos surrealistas consiste em vir, de revólver em punho, para a rua e atirar ao acaso, tanto quanto possível, sobre a multidão. Aquele que, ao menos uma vez, não teve vontade de acabar desta maneira com o sistemazinho de envilecimento e cretinização em vigor, tem o seu lugar muito bem reservado nesta multidão, ventre à altura do cano.»




André Breton                

Manual de civilidade para meninas

NA ESCOLA

_quando te disserem que a gaita de foles é um instrumento usado pelos pastores, não deves contestar afirmando que todos os homens a usam.

_se o professor te pedir emprestada uma caneta não deves, só por isso, parecer que foste convidada a fazer-lhe um broche.(1)

_se o resultado de uma soma for 69 não deves rir como uma idiota.

EM VISITA

_dizer a uma senhora que são belos os seus cabelos louros, é amável; perguntar-lhe em voz alta se os pintelhos são da mesma cor, é indiscreto.

SUPERSTIÇÕES

_para um homem se apaixonar por ti põe-lhe um grão de sal na ponta da gaita(2) e chupa-a até ele se dissolver.

_depois de perderes a virgindade, não deves dirigir-te a Santo António de Pádua para a recuperares. Lembra-te que o Santo António de Tebaida meditou muito sobre as questões do sexo, mas o de Pádua... nem de longe as cheirou.

_não rias durante o sermão se o pregador parecer acreditar «na pureza das raparigas cristãs».

NA CONFISSÃO

_não te masturbes no confessionário para aproveitar, logo de seguida, a absolvição.

EM PASSEIO

_se já tens marmelos, não os destapes a torto e a direito para dar de mamar às bonecas. É uma atitude consentida às amas, mas nunca às raparigas.

NA RUA

_dar uns tostões a um pobre para ele comprar um pão é uma acção meritória; chupar-lhe a gaita porque não tem amante é um exagero. Nada te obriga a fazê-lo.

NAS LOJAS

_não deves entrar num cabeleireiro e dizer, descaradamente, que desejas os pêlos da rata(3) frisados.

NÃO DIGAS... DIZ...

_não digas «vou masturbar-me»; diz «vou ali e já volto».

_não digas «quando tiver pintelhos»; diz «quando eu for crescida».

_não digas «tenho vontade de foder»; diz «estou nervosa».

_não digas «ele dá três sem desencavar»; diz «tem um carácter muito firme».

_não digas «tem uma pixota grossa demais para a minha boca»; diz «sinto-me pequena quando falo com ele».

quarta-feira, 23 de junho de 2010

The art of Christian Northeast



À PORTA DA INSÓNIA

Já o real absorve a irrealidade,
porém que realidade é a da noite
só vivida em palavras? Em vão tento
criar uma sequência de momentos, de
tudo esvaziados, se falho não sei
se é por obras palavras ou imagens


Paro à porta da insónia, e no magro intervalo,
que se alarga depois, reaparece a casa: dentro
dela estou afinal, o estrago que me envolve

é igual ao que também não sei que mal
mortal fez no tecto do sono,
por onde agora entra a realidade




Gastão Cruz, in "a moeda do tempo" assírio & alvim (2006)

domingo, 20 de junho de 2010

Pure Beauty

  

Caminho

que rua é esta que nos separa ao longo da qual seguro a mão dos meus pensamentos
uma flor está escrita na ponta de cada dedo
e o fim da rua é uma flor que caminha comigo



Tristan Tzara, in "Qual é a minha ou a tua língua?" assírio & alvim, 2008
trad. Jorge Sousa Braga

sábado, 19 de junho de 2010

Suspenso da Terra

Cansado do menor desamparo, cansado do maior -
Ao olhar os pés nus na beirada da cama, da poeira,
Você rói as unhas das mãos (cresceram de novo). Na boca
Um odor que lhe faz se sentir só ao dar uma gargalhada.
De manhã, no quarto frio, ninguém dá gargalhadas. No cérebro
Arde uma ânsia, quase incontida, de sair lá fora.
Que o corpo não enfraqueça ao menor pensamento
Nesta mucosidade que ele era, no resto de cinza
Que ele se acumula em superfície nenhuma.
Tudo é cilada - nos olhos, nos ouvidos. Alarmado
Você desperta, suspenso da terra, cruel em toda a inocência,
Um jovem vampiro que sonhou com o pescoço de sua namorada
Entre os dentes a carne de ontem.

Nude women in blue erotism


                                

terça-feira, 15 de junho de 2010

PARA MAIS DO QUE EU

Sou aquele que busca Um caminho.
Para tudo o que é mais
Do que
Metabolismo
Circulação sanguínea
Alimentação
Decomposição das células.


Sou aquele que busca
Um caminho
Que é mais largo
Do que eu.


Não demasiado estreito
Não a via-de-um-homem-só.
Mas tampouco
A poeirenta estrada
Mil vezes percorrida.


Sou aquele que busca
Um caminho.
Um caminho
Para mais
Do que eu.




Günter Kunert, in "90 poemas" apáginastantas, 1983

Stripped

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Erotic,by Jean-Paul Four


SIDI AMAR NO INVERNO

Penso que nunca vi o teu rosto
Num dia de chuva, quando as sombrias artérias do céu
Pulsam junto às árvores, e no teu coração
A água corre. Nunca te vi chorar
Com o monólogo da noite, com a tua mente resistindo ao silêncio.


Chegará o dia em que as linhas do céu
Se desprenderão das torres
E em que tu, que tremes pela noite
Partirás para os lugares sombrios ao lado de um desconhecido.

Paul Bowles, in "Poemas" assírio & alvim, 2008

trad. José Agostinho Baptista

Madrigales

I
Déjame ya ocultarme en tu recuerdo inmenso,

que me toca y me ciñe como una niebla amante;

y que la tibia tierra de tu carne me añore,

oh isla de alas rosadas, plegadas dulcemente.



Y estos versos fugaces que tal vez fueron besos,

y polen de florestas en futuros sin tiempo,

ya son como reflejos de lunas y de olvidos,

estos versos que digo, sin decir, a tu oído.



II

Llámame en la hondonada de tus sueños más dulces,

llámame con tus cielos, con tus nocturnos firmamentos,

llámame con tus noches desgarradas al fondo

por esa ala inmensa de imposible blancura.



Llámame en el collado, llámame en la llanura

y en el viento y la nieve, la aurora y el poniente,

llámame con tu voz, que es esa flor que sube

mientras a tierra caen llorándola sus pétalos.



III

No es para ti que, al fin, estas líneas escribo

en la página azul de este cielo nostálgico

como el viejo lamento del viento en el postigo

del día más floral entre los días idos.



Una palabra vuelve, pero no es tu palabra,

aunque fuera tu aliento que repite mi nombre,

sino mi boca húmeda de tus besos perdidos,

sino tus labios vivos en los míos, furtivos.



Y vuelve, cada siempre, entre el follaje alterno

de días y de noches, de soles y sombrías

estrellas repetidas, vuelve como el celaje

y su bandada quieta, veloz y sin fatiga.



No es para ti este canto que fulge de tus lágrimas,

no para ti este verso de melodías oscuras,

sino que entre mis manos tu temblor aún persiste

y en él, el fuego eterno de nuestras horas.

Nudes,by Blackvertising



domingo, 6 de junho de 2010

Industrial generation

Deadly Perception


The flow



Nu Lost Generation -2006-

   

                                   Factory2010 (DINA4 Mixed Media print on bamboo290).


Blow Smoke (mixed media print on canvas).

Into Wasted Land